Feminine Hi-Fi entrevista Sistah Chilli: uma artista da cultura sound system » DETTONA
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Um dos nomes que têm se destacado no cenário independente feminino, a cantora Sistah Chilli – Paula Manzano no RG – é cria do sound system e transita entre o reggae e o rap para passar sua mensagem. Confira um pouco de quem é a Chilli, como é seu trabalho, e como nasceu seu primeiro EP, “Afronta Sonora”.

Quem é a Sistah Chilli?

 

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Sistah Chilli é uma mulher de 31 anos, mãe de um garoto maravilhoso, que começou a vida na cultura sound system. Com vivência entre punk e skinheads eu percebi que existe uma linguagem que não chegava na periferia e, basicamente, eu sou uma mulher bocuda que queria que outras pessoas ouvissem o que era tão viável contraculturalmente mas que não tinha acessibilidade na periferia. Eu sou cabeça dura, briguenta e escorpiana mas tenho coração enorme, e ele é filtro para os assuntos que procuro explanar em minhas músicas.

Quem é a Paula Manzano?

Muitas pessoas me fazem essa pergunta, mas a resposta vai ser sempre a mesma: não existe diferença entre Chilli e Paula Manzano, somos uma única pessoa. Sempre fui chamada de Chilli porque eu era muito briguenta. No começo era um apelido que meus pais criaram, Pimentinha. Um amigo de sound, Japa Preto, colou na Voith (zona oeste de SP), em casa, e ouviu meus pais me chamando de Pimentinha, então ele começou a me chamar de Sistah Pepper. Inclusive tem um vídeo no YouTube bem antigo, eu cantando em uma festa, e ele me apresenta como Sistah Pepper. Depois de um tempo eu comecei a trabalhar na Chilli Beans e o apelido Pepper virou Chilli, e aí ficou Chilli. Odeio ser chamada de Paula, na escola tinham 7 Paulas na minha sala, as vezes me chamam de Ana Paula, Paulinha então eu detesto. Basicamente somos a mesma pessoa, e raríssimas vezes as pessoas me chamam de Paula.

A diferença que existe é da Chilli MC com a Chilli Mãe. No palco sou a doida, a enérgica que põe todo mundo pra dançar, que fala tudo que tem vontade, brinco com todo mundo, tento colocar todo mundo dentro da música. Sempre falo: você tá no show para assistir? Você tá no meu show para participar! Como mãe eu sou responsável, 24 horas por dia correndo com meu filho para cima e para baixo, quando eu não tô fazendo os corres com ele, eu tô tentando arrumar uma forma de ganhar um dinheiro extra, trabalhando em casa para poder ficar mais próxima do meu filho. Em casa tem bagunça, tem brincadeira, tem música, assim como no palco, e também tem seriedade quando tem que ter. Não consigo passar a ideia que eu tenho para passar para as pessoas com imposição e arrogância. Minha forma de fazer isso é descontraída, sem deixar de mandar a mensagem que me foi proposta. Procuro sempre passar nas minhas apresentações ideias antifascistas, anarquistas e feministas para a periferia.

Como foi o desenvolvimento do EP Afronta Sonora?

O Afronta Sonora nasceu meio que por acaso. Eu fiquei afastada da música muito tempo. Primeiro eu tive uma crew com a Renata (Rude Mamma) e a Laylah Arruda (ambas da Feminine Hi-Fi), o Rude Sistah. Tivemos um tempo de atuação e então a Renata engravidou. Quando decidímos retomar, eu acabei engravidando também, então a música ficou em segundo plano. Também tive um desentendimento com um homem conhecido na cena e isso me deixou bem desanimada em tocar qualquer projeto. Algumas pessoas entraram em contato para gravar faixas mas não tive interesse, até recusei participar de um álbum de Rub a Dub, que é minha paixão, por estar desacreditada da cena. Me dediquei então tempo integral ao meu filho.

Tinha um amigo meu que ficava sempre me pedindo pra cantar, gravar no celular e mandar pra ele. Um dia ele me desafiou e disse que eu não tinha coragem de postar no Instagram, aí eu fui lá e postei. O resultado foi imediato: o vídeo bombou. Na mesma época um tal de Rasec me adicionou, e ele começou a ver esses vídeos que eu postava aleatoriamente cantando rocksteady, cantando rub a dub e tudo que eu sempre costumo cantar. Então ele me convidou pra colar com ele pra gente gravar alguma coisa, mas eu disse pra ele que não curtia essas paradas de estúdio, meu negócio é sound system, não queria mídia…

Mas ele me convenceu. Colei, ele me mostrou o beat com sample da música Stop That Train, um clássico rocksteady da dupla Keith and Tex, eu amei e coloquei uma letra qualquer na base, ele gravou, e pela primeira vez eu me ouvi de forma diferente. Cheguei em casa, me ouvi novamente e pensei que se eu tava me ouvindo, as pessoas poderiam me ouvir também, então pensei em utilizar a música como forma de desabafo. Assim foi o Afronta Sonora.

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Não tem nenhuma história criada ou inventada, tudo é do cotidiano e da minha vivência. Soltamos essa primeira track na internet e em um dia tinham mais de 2 mil visualizações, foi tudo muito rápido. O pessoal da Fatiado Discos me procurou e me ofereceram gravar o EP. Eu torci o nariz mas o Rasec me convenceu e assim desabafei geral, assim nasceram as outras tracks. Em 6 meses o disco ficou pronto, em 8 meses foi lançado, em um ano todas as cópias foram vendidas, fiz mais de 75 shows. Eu nunca imaginei que nada disso pudesse acontecer.

Já viajei para vários outros estados, conheci várias pessoas, outras cidades, tudo por conta de um disco que eu não planejava. Eu ainda estou naquela fase que eu ainda não tô sacando muito o que tá acontecendo. Não era nem pra tá gravando RAP, era para gravar Rub a Dub que é a minha praia, mas me senti muito à vontade e confortável para conversar com as pessoas de comunidades através do RAP, o veículo para chegar no coração da periferia.
O Afronta Sonora foi tão bem recebido que já estamos trabalhando no volume dois, que está com prévia de lançamento para setembro desse ano.

Quais foram suas maiores influências na música? Quais são as cantoras que te inspiraram?

Falar de influência é muito embaçado porque eu desde pequena eu ouço do samba ao punk. Meu pai era pastor da Igreja Batista e tinha um Coral na igreja, mas eu tinha vergonha de cantar perto dele porque o coral era muito bom. Eu sempre ouvi muitas cantoras como Janis Joplin, Alcione, Aretha Franklin, Alicia Keys, Lauryn Hill e Erykah Badu. Pra mim sempre foi mágico ver mulheres cantando, além de cantar elas seduzem, envolvem, é muito diferente de ouvir melodias cantadas por homens. Eu sempre gostei de love songs, meu pai é um cara que sempre teve os discos tipo Commodores, Miles Davis, Michael Jackson… Às vezes não tinha comida pra comer mas tinha um bom som para ouvir.

Como surgiu a parceria com o beatmaker Rasec? Como é trabalhar com ele?

Como eu contei, Rasec me ouviu cantando no Instagram, me adicionou e me convidou pra fazer o primeiro som. Nosso encontro é o encontro do RAP e do REGGAE, eu cantava reggae e amava rap e ele ama rap mas também ouvia reggae, aí nasceu a ideia de misturar o amor da vida dele com a o amor da minha vida. Nós nos completamos nas nossas diferenças, e valorizo muito a forma que ele se adaptou à minha personalidade forte com facilidade. Me apaixonei loucamente por ele e com certeza ele é meu melhor amigo, já comemos juntos muito amendoim e biscoito de polvilho juntos sem grana e muita pizza gourmet em rolê foda juntos também, ele é meu parceirão, um dos únicos homens que conseguem conviver comigo na TPM.

No Afronta Sonora 2 temos um panda na capa que é o Rasec, ele parece um panda num parece gente?!

Em 2017 o feminismo chega na periferia?

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Ah se chega!!! Quando comecei a compor sobre esse assunto eu pensei em uma forma fácil de passar a informação, sem linguagem coloquial, sem frescura, sem aquelas palavras difíceis que as minas escutam e tem até vergonha de perguntar o que é. Busquei trazer no Afronta Sonora um ABC do feminismo. Digo com franqueza de todo coração que o feminismo já chegou na periferia em 2016. Estamos engatinhando, nos fortalecendo, tem muito assunto importante que precisa ser abordado ainda.

Se você pudesse escolher um time pra compartilhar uma Cypher, qual seria seu time dos sonhos?

Temos um projeto de cypher por trás dos panos que agora a gente pode contar, eu, Brisa Flow, Barbara Sweet, Dori de Oliveira e a Meire De Origem, estamos trabalhando nele mas aconteceu da Dori entrar no programa A CASA então a gente tá aguardando pra terminar esse trabalho aí. Se for pensar em uma cypher surreal, dos sonhos, eu gostaria de trabalhar com Erykah Badu, Lauryn Hill, Oshun e Hempress Sativa .

Quais são os próximos projetos da Sistah Chilli?

Novidade palpável agora é que estamos trabalhado um disco de Rub a Dub, mas o foco principal ainda é o Afronta Sonora 2. Além de produções do Rasec, teremos produção do DJ Marco da Discopédia. Marco, muito querido, tocou meu som no show do Criolo, e eu fiquei sabendo porque várias pessoas começaram a me mandar áudios na hora que ele estava tocando. Resolvi mandar uma mensagem para ele, agradeci por ter rolado minha track. Ele me presenteou com um beat com sample do Alton Ellis, e já estamos trabalhando com essa música nos shows do Afronta Sonora 1.
Em novembro está prevista uma turnê à Europa de 30 dias, e em setembro lançamento do Afronta Sonora 2, que está sendo trabalhado com mais maturidade e conhecimento.

O que você espera do seu trabalho pro futuro?

Esperar algo do meu trabalho assim, eu realmente nunca esperei nada tá ligada? Eu esperava só que as pessoas me ouvissem. Hoje em dia eu espero que as mulheres me ouçam e se sintam empoderadas, que elas percebam que todas nós podemos dar a volta por cima, até porque nossas mães, nossas avós passaram por situações parecidas e não tinham essa força do sagrado feminino que estamos vivendo agora. Espero que as coisas que canto na minha música em algum tempo seja via de regra. Espero que o feminismo não seja mais um diferencial e sim normal, que seja nossa rotina.

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Um grande desejo que tenho é que o Reggae, Rap e Punk, que têm um grito muito parecido em relação à periferia, andem lado a lado, ainda existe uma divisão grande. Acredito que se somássemos mais conseguiríamos ecoar mais longe, levar a mesma mensagem para mais pessoas. Seria muito produtivo juntar as manas do rap com as manas do reggae, com as manas do punk. O objetivo de todas nós é o mesmo, os ritmos são diferentes mas a mensagem é a mesma. Para mim o ideal é ver todas juntas trabalhando para desconstrução do que nos faz mal. Meu sonho é ver todas as manas juntas independente do estilo musical.


Créditos
Fotos por: Tatiana Guimarães
Make por: Ana Beatriz
Assessoria de moda por: Mariana Nakano
Apoio: OHime alargadores

Por: - 2 meses atrás

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