Os 10 melhores álbuns de rap de 2017 - DETTONA » DETTONA
Música

2017 acabou, mas nos deixou com as lembranças de um dos anos mais especiais para a história do rap moderno. Listamos, então, os 10 melhores álbuns do gênero do ano passado. Dá uma olhada:

10. 4:44 (Jay-Z)

Por Letícia Teixeira

Talvez o álbum mais polêmico da carreira de Jay Z, “4:44” é uma resposta ao igualmente polêmico “Lemonade”, de sua esposa, Beyoncé, lançado em 2016. Mas último lançamento de Jay não é apenas um pedido de desculpas; é também um antro de discussões relevantes para a sociedade e para sua família.

Jay-Z menciona sua mulher, seus filhos, sua mãe, seu pai, homossexualismo, racismo e muito mais. Em “Moonlight”, por exemplo, o rapper faz apologia ao ocorrido na cerimônia do Oscar no ano passado, onde “La La Land” foi anunciado vencedor do Oscar de melhor filme em detrimento do homônimo da canção – incidente que se tornou a metáfora perfeita para que o rapper conseguisse explicar toda a supremacia branca que ainda existe no cenário hollywoodiano e como ainda é necessário empoderar o movimento negro dentro de grandes produções cinematográficas.

O “4:44”, porém, não conseguiu alçar voos mais por uma simples razão: poucas pessoas puderam ouvi-lo. Jay-Z limitou todos os seus álbum e singles ao Tidal, plataforma de streaming do qual é dono. Ou seja: usuários do Spotify, por exemplo, ficaram fora da experiência.

Curiosidade: Este álbum, assim como “Lemonade”, é um álbum visual; cada clipe de cada faixa é um minidocumentário (exceto “The Story of OJ”, que é uma animação). E todos estão disponíveis no Youtube.

9. Common Sense (J Hus)

Stormzy, Dizzee Rascal e Wiley lançaram álbuns que fizeram barulho em 2017, mas nenhum deles conseguiu superar o padrão de qualidade estabelecido pelo jovem J Hus na cena do rap britânico.

Os poucos 22 anos nas costas não prendem o garoto num retrato limitado. Hus compôs uma obra que vai do grime ao reggae, explorando o melhor da febre de afrobeats e até algumas estrofes que lembram aquele 50 Cent da década passada.

Aliás, “Did You See”, single que virou carro-chefe do álbum, foi a pedra fundamental do supracitado movimento afrobeats que tomou conta de Londres no ano passado e está ditando a passada de 2018. “Spirit” e “Bouf Daddy” também merecem destaque neste contexto.

Curiosidade: Não citei o 50 Cent como referência do garoto por acaso. Curtis é o grande ídolo de J, e ele diz que não é só pela música. “Eu também fui preso e também sobrevivi a agressões físicas que teriam matado a qualquer outro“.  O inglês tomou seis facadas em 2015 e está aí.

8. Flower Boy (Tyler, The Creator)

Este não foi um álbum absurdamente importante só para a carreira de Tyler (depois do “Cherry Bomb” que, convenhamos, não foi lá essas coisas para quem acompanhava a música do rapaz), mas também para a representatividade do retrato LGBT em um cenário ainda tão machista como o rap. Por quê? Bem, você sabe. Tyler é bissexual há anos, mas saiu do armário de vez através de “Flower Boy”.

“Eu tenho beijado garotos brancos desde 2004”, ele constata em “I Ain’t Got Time” – uma das melhores canções da obra, inclusive. E não faltam versos em todas as outras faixas que, se não cravam cruamente a orientação sexual do rapper, pelo menos deixam uma dúvida na cabeça de quem o ouve fazendo vista grossa.

Enfim, “911 / Mr. Lonely” merece holofotes, “See You Again” (com a rainha Kali Uchis) é uma das três músicas do álbum que ultrapassaram os 40 milhões de streams no Spotify e se você ainda não bateu cabeça com “Who Dat Boy”, 2018 está só no começo; aproveite.

Curiosidade: Tyler não compôs a letra de “See You Again” para si. Na verdade, o hit foi originalmente escrito para Zayn Malik, ex-membro do One Direction, mas o rapper acabou tomando sua criação para si porque Zayn miou seis vezes o convite para apareceu no estúdio e gravar a canção.

7. blkswn (Smino)   

O Smino foi uma das mais gratas surpresas do ano passado. Depois de fazer fumaça em collabs e EPs até 2016, o garoto lançou seu primeiro álbum da carreira no primeiro semestre de 2017 e foi um sucesso instantâneo. A deliciosa “Netflix & Dusse” viralizou rápido, “Wild Irish Roses” virou hino e “Anita” ganhou até remix com o mago T-Pain no fim do ano.

Produzido pelo monstro Monte Booker, “blkswn” (“black swan”, tudo junto, sem as vogais, porque “cisnes negros também são lindos, tanto quanto os brancos, e eu não vou deixar a beleza ser exclusiva dos cisnes brancos, nem deixar que isso faça eu me sentir mal”, de acordo com o rapper) mistura muitos ritmos, tempos, temas e leituras de barras.

O álbum é bom demais e completo demais para ser o só primeiro álbum de um jovem artista – por isso, inclusive, é que Smino é considerado um dos maiores prospectos para a próxima geração de gênios do rap.

Curiosidade: O álbum foi lançado especificamente no dia 14/03 porque, veja bem, o rapaz é de St. Louis, cujo código telefônico de área é 314 (nos EUA, lê-se a data como 03/14). O dia do seu debut foi também uma homenagem à sua cidade natal.

6. Good For You (Aminé)

Aminé é um dos rappers mais divertidos da atualidade, e seu último álbum foi capaz de quantificar essa qualidade. Mas não é uma diversão besteirol, como era com Ludacris ou Eminem (naquela época, você sabe qual), nem uma diversão superficial de uma noite só, como era com Flo-Rida ou Wiz Khalifa. “Good For You” é inteligentemente cômico, em níveis que Childish Gambino e Danny Brown ainda sonham em chegar.

O single “Caroline” foi o trampolim do rapaz, mas se enganou quem limitou a genialidade de Aminé ao seu maior hit. “Heebiejeebies”, “Wedding Crashers” e “Spice Girls” são faixas animadas, empolgantes e não menos bem elaboradas do que o carro-chefe – dentro do álbum, todas são perfeitamente bem equilibradas por outras canções menos marcantes, obviamente, mas igualmente gostosas de ouvir, com batidas impecáveis e instrumentais bem peculiares.

Vale lembrar que só cinco das quinze faixas de “Good For You” não foram produzidas pelo próprio rapper, fato que dá mais pontos à obra do garoto de 23 anos e a estabelece como um dos principais lançamentos de 2017.

Curiosidade: Aminé produz, sim, a maioria de seus instrumentais (aprendeu com tutoriais no YouTube), grava e dirige a maioria de seus clipes e faz a maioria de suas artes de capas e afins. O cúmulo da autossuficiência.

5. More Life (Drake)

Por Gustavo Ribeiro

Drake já errou muito, mas quase sempre soube se renovar. Após as justíssimas críticas à “Views”, Aubrey voltou pro estúdio e desenhou uma das bagunças mais rica de 2017. Pra livrar-se do peso de um álbum, “More Life” foi lançado apenas em formato digital – como a própria capa da obra diz, para ser uma playlist – e deu tempo considerável de highlights para outras vozes como as de Skepta, Jorja Smith e Sampha (postura comum de Drake, que sempre fez pelos seus, bem como já ajudou A$AP Rocky e Kendrick Lamar a se firmarem como nomes sólidos que são hoje).

Desde o início, escutamos linhas repletas do que Drizzy e seu fiel escudeiro Noah ’40’ sempre oferecem: samples ricos como os de Hyatus Koyote (Nai Palm tem uma das vozes mais lindas do mundo), Black Coffee e Snoh Alegra; rimas sobre sentimentos não correspondidos; features da OVO e rimas sérias demais pra um loverboy canadense como ele. Mas o que torna “More Life” grandioso não é aquele mais do mesmo, e sim a complexidade cultural do projeto como um todo (que nada mais é que reflexo da multicultural Toronto, terra que ‘The Boy’ tanto ama representar), com influências fortíssimas do grime e house african, além de alguns pontos específicos que encheram os olhos e ouvidos, como as rimas secas de “Gyalchester”, o Drake de “Take Care” sofrendo pela J Lo em “Teenage Fever”, a química perfeita entre ele e Jeffery em “Ice Melts” e, acima de tudo, a superexposição de “Do Not Disturb”, faixa que encerra o álbum.

O artista expõe suas fraquezas, necessidades, dá seu golpe no já resolvido beef com Tory Lanez e joga linhas como “Take this shit to heart, it’s always executed perfectly / If we do a song it’s like takin’ my kids to work with me“. É um projeto mais longo do que deveria ser, mas é extenso em riqueza de versos e produção, também. No fim das contas, “he will be back in 2018 to give us the summary“. Aguardemos ansiosamente por isso.

Curiosidade: O álbum do superstar canadense, apesar de ter marcado as paradas de 2017 com pelo menos três grandes hits, não vai para o Grammy deste ano. Simplesmente porque Drake não o inscreveu. E ele não poderia se importar menos. Quer dizer, como bem disse em “Blessings”, do Big Sean, “I can’t give two fucks about where the Grammys go – I just gave out Grammys on my Instagram“.

4. Ctrl (SZA)

A SZA não tinha conseguido emplacar nenhum grande hit em seus lançamentos antes de 2017, mas “Ctrl” quebrou todas as barreiras que a talentosa cantora ainda não havia quebrado e subiu o sarrafo do R&B.

Com composições sensíveis e instrumentais assustadoramente delicados, o quarto álbum da americana pode ser descrito como uma sessão de terapia para a própria artista e para o(a) ouvinte atento(a). Faixas como “Love Galore”, “Broken Clocks” e “The Weekend” (estas três, os grandes destaques do compilado) ensinam a amar sem quebrar a cara, se dedicar sem perder o orgulho, abrir mão de uma grande paixão sem rancor ou saber se perdoar.

Em inúmeros aspectos, “Ctrl” é uma grande lição. Escute e tome nota. Fica muito mais gostoso aprender qualquer com a voz da SZA.

Curiosidade: A TDE, gravadora da SZA (e de artistas como Kendrick Lamar, ScHoolboy Q, Ab-Soul e Isaiah Rashad), lançou o “Ctrl” contra a vontade da cantora. Ela alega que, com pressa para gerar lucro, os donos do selo teriam roubado seu HD e desenvolvido a seleção de um jeito diferente do que ela gostaria.

3. Big Fish Theory (Vince Staples)

Vince Staples já havia se colocado entre os nomes relevantes do rap atual no ano passado, com “Prima Donna”, mas era difícil imaginar que em menos de um ano o ex-integrante do Odd Future iria tão longe em capacidade e influência.

Se aproveitando de inúmeras collabs que fez recentemente com Flume, Gorillaz, GTA e muitos outros, Vince se debruçou num gênero de rap mais voltado à música eletrônica, com instrumentais bem diferentes do que se espera ouvir nesse contexto – “Yeah Right” é um ótimo exemplo. Sem falar nas participações de Kendrick Lamar, Juicy J, Ty Dolla Sign e A$AP Rocky.

“Big Fish Theory” é tão agressivo quanto profundo. O rapper de North Side Long Beach consegue bater forte com “Big Fish” e botar para descansar com “745” com uma maestria descomunal. A sequência final, composta por “SAMO”, “Party People”, “BagBak” e “Rain Come Down”, é coisa de museu.

Curiosidade: Ninguém sabe qual é exatamente, no fim das contas, a porra da ‘teoria do peixe grande’ que intitula o álbum. Perguntaram para Vince se ele diria o que é. Ele respondeu. “Não vou dizer. Pode significar o que vocês quiserem que signifique.” Ok.

2. Culture (Migos)

“Culture” não é tão profundo quanto “Big Fish Theory”, não é tão sensível quanto “Ctrl”, não é tão divertido quanto “Good For You”, nem tão genial quanto “blkswn”. Então, o que faz ele aparecer em segundo lugar nessa lista?

Seu nome responde: cultura. Sabe, aquele complexo que envolve o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes, os hábitos e tudo o que diz respeito a uma determinada sociedade. Pois bem, foi o trio que ditou o caminho dos últimos meses da cultura do rap com seu segundo álbum de estúdio. Digo, quem não se divertiu ouvindo os versos engasgados de “T-Shirt”, o flow contagiante de “Get Right Witcha” ou o ritmo tranquilizante de “Kelly Price” curtiu o ano do jeito errado. Simples assim.

Aliás, mesmo se “Bad and Boujee” (provavelmente o rap mais marcante deste biênio) não estivesse na tracklist, “Culture” ainda seria um dos melhores álbuns de 2017 nadando de braçadas por ser simples, direto, festivo, agradável e acessível.

Curiosidade: Dias antes de lançar o álbum, o trio (Quavo, Offset e Takeoff) anunciaram uma festa privada nos estúdios do YouTube em Nova York que acabou sendo, na verdade, uma audição: os três se sentaram à frente do público presente e tocaram o “Culture” de cabo a rabo para que fosse apreciado.

1. DAMN. (Kendrick Lamar)

É possível discordar da ordem no ranking de todas as listas de álbum do ano. O terceiro deveria ser quinto, o sexto deveria ser segundo e o sétimo nem deveria estar ali. Sempre há desacordo. Mas em 2017 o topo é inquestionável – e você pode tirar essa prova procurando absolutamente qualquer lista de qualquer portal. Kendrick Lamar dominou o planeta com “DAMN.”

“HUMBLE.” apareceu no primeiro semestre e deixou o mundo inteiro se perguntando “o que é que esse cara tá armando?”. O clipe provocante e as cabeças acenando ao passo de “sit down, be humble” se tornaram um clássico instantâneo. Isso para, menos de um mês depois da pedrada, Kendrick lançar o álbum que distorceria o cenário que vinha sendo consumido pelo mumble rap com versos pobres e melodias chiclete.

Como de costume, a seleção explorou um R&B bem desenhado, apresentou faixas conceituais que são impressionantemente boas de se ouvir e reuniu duas ou três pauladas. “DNA.”, “LOYALTY.” e “LOVE.” merecem destaque. Aliás, o rapper convocou menos artistas para aparecer ao seu lado nas faixas deste álbum, mas entre os poucos estavam Rihanna e U2, e isso dá uma ideia da grandeza da obra.

Pra quantificar o estrago, “DAMN.” levou o prêmio de álbum do ano no BET Hip Hop Awards, no American Music Awards e é um dos fortes concorrentes ao Grammy do ano que vem. Ou seja, não bastasse ter lançado aquele que é provavelmente o melhor álbum de rap da década em 2015 (o “To Pimp A Butterfly”, que, ok, tá pau a pau com “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”), Kendrick entalhou outra criação genial no Olimpo da música moderna.

Curiosidade: A Xuxa fez escola. Coloque “FEAR.” pra tocar ao contrário, do avesso, e se surpreenda. Kendrick escondeu versos no meio da canção quando ela é ouvida de trás pra frente – e, como não podia deixar de ser com ele, as letras são ótimas. Olha aqui.

Por: - 1 semana atrás

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